TAITO

Depoimento de Divino Leitão

Antes de escrever qualquer coisa, quero deixar com vocês a razão de ter vindo falar sobre a Taito. Foi a exibição, em 12/03/2021 (na verdade já na madrugada do outro dia) no programa do Danilo Gentili, com os convidados André Martinez, Luiz Culik e Ricardo Kobe, falando sobre a Taito do Brasil, uma empresa que muitos já ouvimos falar, mas não sabemos da missa, nem a metade.

Se ainda não viu e quiser ver antes a matéria, sinta-se a vontade, depois volte e entenderá porque eu tinha que escrever sobre isso.

Na verdade eu quase pulei da cama para vir escrever sobre isso, mas pensei melhor e resolvi me dar uns dias para pesquisar e não ficar apenas nas lembranças que este programa me despertou.

FICHAS DE FLIPERAMA

Durante o programa Danilo contou um “causo” sobre usar um pedaço de chumbinho com um fio para conseguir créditos, os entrevistados adicionaram “causos” sobre uma ficha feita de gelo, já eu, fui levado para uma festa de formatura de uma de minhas irmãs.

De faculdade partimos para um bar que tinha uma única mesa de fliperama e gastamos bastante lá, mas o dono do bar, querendo fechar, informou que as fichas tinham acabado e isso me levou a tentar um truque, que já tinha ouvido falar, mas nunca tinha feito. Peguei um fio dental e dei umas duas voltas na ranhura da ficha, colocando na máquina. quando senti que estava passando pela área que ativa o crédito, puxei o fio várias vezes, fazendo a ficha ir e voltar, até que em uma das puxadas o fio soltou e finalmente a ficha caiu e nos encheu de créditos.

O dono do bar estranhou a demora em terminar os jogos, mas justo quando foi “conferir” falamos que os créditos a mais eram cedidos pela máquina e bem na hora que ele estava lá, três dos quatro jogadores foram brindados com partidas extras. Sem ter o que fazer propôs devolver o valor das fichas, para poder fechar o bar… mas fizemos questão de jogar até esgotarem as fichas.

Nunca tinha usado e nem usei mais este truque, mas neste dia foi interessante e no programa percebo que não era o único a fazer.

As fichas eram compradas para poder usar os jogos e sei que gastei muita grana com isso.

Notem que uma das fichas traz a inscrição “diga não as drogas” algo que nunca tinha percebido quando as usava, era pegar e jogar, nada de ler o que estava escrito na ficha.

Quando comecei a frequentar os Fliperamas, provavelmente no início dos anos 70 a minha presença nestes locais era proibida, então pensem no desespero de ver todas aquelas máquinas fazendo barulhos atraentes, aquele brilho todo e eu impedido de entrar, devido a idade.

Dei um jeito, consegui fazer amizade com o dono da loja e ajudava a limpar as máquinas antes do horário de abrir, com isso tinha a oportunidade de jogar algumas vezes e de graça, o técnico abria as máquinas e liberava uns créditos.

A vontade de jogar era tanta que construí minha própria máquina de Fliperama. Era uma miniatura e os flippers eram cabos de vassoura presos em um parafuso. E a base da caixa foi de uma caixa de som que eu havia feito para a aula de artes na escola, o auto-falante da mesa foi usado, ligado a uma placa que fazia os sons e que havia montado com a revista “Divirta-se com a eletrônica”.

Leds piscando também eram montagens da mesma revista, os bumbers não eram acionados eletricamente, não passavam de câmera de pneu de bicicleta, montados em embalagens de plastico pintadas e com parafusos. Uma verdadeira obra de arte, pois enganava quem jogasse e era o maior sucesso entre os amigos.

A primeira tampa foi de vidro, que nem sei de onde tirei, mas na primeira pancada mais forte se estilhaçou toda e foi substituída por um plástico grosso, que aguentava mais e eu trocava quando ficava sujo.

A máquina acabou recebendo bumbers de verdade, e até mesmo um contador de pontos, todos acionados eletronicamente. Os bumbers eram o corpo eletrônico de uma campainha, que acionava um magneto e fazia bater com força na bilha de aço, ganhou mais vida e assim a mesa ganhou tanto rebatedores quando um dispositivo de partida, parecido com o de uma mesa de verdade, só nunca consegui fazer os flippers, mas os cabos de vassoura eram excelentes, dava um controle perfeito.

Nem sei quanto durou esse “monstro de frankestein” do fliperama, mas aos pouco fui crescendo e mesmo antes dos 18 já podia entrar nos fliperamas e jogar naquelas fantásticas máquinas, de verdade.

Até onde me lembro, desmontei meu mini flipper a para fazer um projetor de slides que também fez muito sucesso quando o apresentei na escola, porque pegou fogo. Coloquei em uma caixa preta uma lâmpada de 300 watss e enquanto mostrava os slides, um deles pegou fogo. A lâmpada, que ficava em um soquete, em pé, derreteu seu vidro e entortou. Ainda tive a cara de pau de ir na loja e pedir para trocar por duas de 150… bons tempos, em que o consumidor era respeitado 🙂

Infelizmente não há fotos de nenhum destas raridades, câmeras nesta época eram raríssimas e filme, idem.

MEUS PRIMEIROS JOGOS

Quando criei meus primeiros jogos de computador, no ZX 81, a influência do Fliperama era ainda maior, tanto que o único de meus primeiros 4 jogos que não era baseado em um jogo já existente, foi justamente o Pinball.

Tudo bem que era baseado em um jogo existente, mas além de ser completamente desenvolvido em assembler, sem uso de compiladores o meu Pinball para ZX 81 era moderno, muito moderno, pois trazia embutido até mesmo um criador de mesas. Em termos de programação foi — para mim — o estado da arte, tinha atingido o mais alto nível para a época.

Um apreciador do programa, de fora do Brasil, concorda comigo e fez este interessante vídeo, sobre este jogo.

Todos meus jogos eram criações originais, porém eram baseados em jogos já existentes, cuja mecânica era similar, no caso do “Valkirie” e também do “Q*Bert” eu copiei o jogo completamente, apenas usei um método próprio para programar e redesenhar as telas. Poucos sabem mas fiz uma versão do “Valkirie” em alta resolução para o MC 1000, logo em seu lançamento, entreguei a CCE, porém acredito que o micro foi descontinuado antes do jogo ser lançado.

Mas o Pinball eu só fui influenciado pelas máquinas reais, não existia nenhum jogo em computador, depois vi uma versão do Pinball para Atari 2600, que era até mesmo muito parecido com o meu, creio que era o que existia para se fazer naquele momento.

O programa embutido, para a criação das mesas era uma influência de um jogo que ainda curto muito, “Lode Runner” que vinha com um sistema de criação de telas. Fiz muitas telas, mas não existia internet na época para compartilhar e se perderam.

VONTADE DE JOGAR DE NOVO

Mais do que despertar lembranças, o programa despertou a vontade de jogar de novo em uma máquina destas.

Quando estive na BGS 2019, havia no local uma fantástica instalação com máquinas de fliperama, mas não pude jogar em nenhuma, eu estava com uma perna a menos e não tinha ainda muita habilidade para conseguir ficar em pé, até tentei jogar da cadeira de rodas, mas era inviável, sem contar que a fila era grande e achei chato ficar furando.

Mas depois que vi o programa veio a saudade e pensei… Deve ter algum simulador, lembrei que já tive um há muito tempo, veio em uma revista e funcionava muito bem.

Uma pesquisada no Google e encontrei o “Virtual Flipper”, sendo que há muitos outros, mas consegui instalar este com relativa facilidade, vendo tutoriais do Youtube e joguei bastante, no sábado, matando inclusive a saudade de algumas que cheguei a jogar lá na infância.

Uma que me chamou a atenção foi a máquina “Oba-Oba”, com as “mulatas do Sargentelli” que tinha uma casa de shows com este mesmo nome. No programa os convidados esclareceram que não é uma máquina criada no Brasil, mas uma adaptação de outra, que representa um cassino de Las Vegas, mudaram apenas o layout e pimba…

Cheguei a jogar nesta máquina, quando morava no Rio, tanto a emulação quanto a original foram bem sem graça, com uns sons tentando imitar samba e um layout bem caricato, vou procurar a versão original, para ver se melhora.

AYRTON SENNA

Claro que ninguém nunca ouviu falar de uma máquina de fliperama sobre o Ayrton Senna, mas ela foi apresentada no programa, inclusive o Gentili, com sua irreverência fez uma excelente pegadinha que deixou assustado o criador da máquina, o convidado Luiz Culik, que viu a máquina explodir e soltar fumaça, mas foi só armação da produção do programa, a cara que ele faz é impagável.

A máquina homenageia nosso ídolo da F1 e com certeza o Senna ia adorar uma destas, já que colaborou muito para a criação de um jogo de corridas de F1, que levava seu nome, joguei apenas a versão do Game Gear, que era excelente.

Alguns arcades também traziam o Ayrton na decoração, porém nunca foi criada uma máquina de fliperama tradicional para ele, porém ela foi levada ao programa e estão inclusive tentando aprovar, junto ao instituto Ayrton Senna, para venda.

 

 

A HISTÓRIA DA TAITO

Máquinas de fliperama não são tão recentes quanto se imagina, existem equipamentos de Pinball que datam do século 14, porém quem inovou nas versões eletrônicas foi a TAITO, apenas uma das diversas empresas que as produziram.

Porém a TAITO tem algo especial, desde sua fundação, já que originalmente era apenas uma empresa de comércio de bebidas e alimentos, que acabou fazendo sucesso com aquelas máquinas que vendem salgados e daí para começar a produzir jogos, parece que foi um passo.

Apesar da empresa ter sido fundada em Tokio — Taito é um bairro de Tokio — seu fundador foi um ucraniano, fugido da guera e que foi parar no japão.

A empresa foi criadora de um dos mais icônicos jogos, que deu praticamente a partida nos jogos eletrônicos, o Space Invaders, considerado o segundo jogo mais vendido em todos os tempos, o primeiro é o PacMan e só em jogos Arcade tem mais de 500 títulos de muito sucesso.

Fez também muito sucesso nos EUA, mas no Brasil tem uma história singular, que é contada no livro de André Martinez e que ainda não tive o prazer de ler, mas certamente irei, na primeira oportunidade.

Vendo alguns vídeos, descobri que um dos filhos do fundador da empresa veio representa-la no Brasil e em plena criação da reserva de mercado a empresa conseguiu se adaptar a todas as dificuldades e prover nosso mercado, inclusive deixando de apenas montar máquinas, para passar a fabrica-las aqui e fez isso até meados da década de 80, quando os fliperamas deixaram de ser uma moda e passaram a ser objeto de atração apenas para colecionadores e saudosistas.

O que eu não sabia é que eram tantos. Na entrevista se percebe que a comunidade é bem grande e que muitas pessoas, inclusive o próprio Danilo Gentili, tem pelo menos uma destas máquinas em casa, elas são objeto do desejo de muita gente ainda.

VIRTUAL PINBALL

Após conseguir instalar o “Virtual Pinball” em meu PC e matar um pouco das saudades, percebei que a comunidade dos que curtem este tipo de jogo no PC também é muito grande.

Em termos de simulador, me parece que este é o mais famoso e utilizado, mas existem muitos outros, pensei em instalar e testar mas são tantos que deixarei para outra ocasião, caso fique claro que esta comunidade se interessou por este artigo e que isso seja demonstrado nos comentários.

A parte mais interessante e que ainda não tive como testar me pareceu o sistema de criação de mesas, onde é possível criar nossa própria mesa em um sistema muito parecido — porém infinitamente mais eficiente — com aquele que criei nos anos 80 e agora temos a Internet, portanto é possível criar sua própria mesa e enviar para a comunidade.

Não é uma tarefa fácil, porém o processo me pareceu bastante simplificado e com certeza vou partir para a criação de uma mesa e já tenho até o nome e tema para ela: Cavernas de Marte.

Marte é o tema mais falado atualmente, devido as missões que estão em andamento e as que estão previsas, inclusive enviar pessoas para lá, além disso estou desenvolvendo um adventure e coletando informações sobre o planeta então a mesa de Pinball entra nos planos para isso e voltarei, em breve, a tocar no assunto.

Meus agradecimentos a esse pessoal, que dedica muito de seu tempo para nos trazer histórias fantásticas como essa, que uma simples observação permite demonstrar que em muitas vezes a nossa vida é conduzida por estas pequenas coisas.

A minha, com toda certeza, foi muito influenciada por estes produtos e só me dei conta de quanto ao ver esta entrevista histórica.

Meus parabéns a todos os envolvidos…

 

Divino Leitão

Safra de 57, um cara das artes, professor e coordenador do CPD da MS. Desde sempre!

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