SUPER PAULINHO

 

ENTENDA QUEM FOI PAULINHO…

Sua identidade secreta era: Paulo Henrique Machado, o “Paulinho” que morava em uma unidade do HC de São Paulo, desde pouco mais de um ano de idade.

Vítima da poliomielite, foi parar no HC e viveu lá mesmo, num quarto de hospital, por mais de 50 anos, levando uma vida produtiva e rica, da qual se orgulhava.

Em uma entrevista, ouvi ele dizer que se tivesse a oportunidade de ser “transferido” para outro corpo, não aceitaria, estava feliz em ser como era.

Sem poder andar, com problemas respiratórios, apenas usando um braço, entre muitas outras dificuldades, Paulinho mantinha uma mente fantástica, capaz de criar maravilhas e de fazer, ali mesmo — em um limitado quarto de hospital — coisas que muitos não conseguem… como se formar ou aprender várias atividades, Paulinho adorava futebol e tecnologia.

Com todas as limitações usava computador, adorava jogos, era artista gráfico e ainda mantinha um canal no Youtube…

Não conheci o Paulinho, nunca sequer tinha ouvido falar, soube de sua existência no dia em que nos deixou, pois sua morte foi muito lamentada nas redes sociais, em reportagens diversas. Paulinho era muito conhecido… tive a sensação que só eu não sabia dele, se soubesse, tenho certeza que teríamos conversado muito, sei lá… talvez até fazer algo juntos.

Quando soube de tudo isso… eu, que andava desanimado, com tantos problemas causados por essa pandemia e questões pendentes de tantos tipos que nem gosto de pensar.

Havia parado até mesmo de escrever aqui na MS, algo que sempre fiz com o maior prazer, desde 2009.

PORQUE PAROU? PAROU POR QUE?

Tive que dar um tempo… não apenas na MS, mas em todas as responsabilidades, passei a me dedicar a ver os filmes que não vi, a ler o que ainda não pude ler e outras coisas que ainda posso fazer, achando que não valia a pena fazer nada. Certamente reflexo de tantos dias isolado.

Me sentia completamente desanimado e então fico sabendo da história desde cara fantástico, que chegou inclusive a ir em uma feira da BSG, levando todo o quarto de hospital com ele. E pensar que me senti “orgulhoso” por ter ido na BGS 2019, com minha cadeira de rodas, pegando ônibus sozinho e tudo mais…

Na verdade foi uma aventura, onde pude contar com a preciosa ajuda  de amigos que lá estavam e me apoiaram. A serie BGS 2019 mostra todo este trabalho de reportagem.

Perto do que o Paulinho fez na vida, isso tudo passou a ser irrelevante, coisa de principiante e olha que só vi mais ou menos 0,001% do que o cara produziu, em uma situação que eu nem sabia que alguma pessoa pudesse sequer  aguentar.

Tenho uma filha PCD, ela tem quase 40 anos e tem parte dos mesmos problemas que o Paulinho. Nunca a deixei ficar presa, nem mesmo em casa. Ambos tinham baixa expectativa de vida e igualmente são limitados, mas o cérebro dela teve uma perda grave ao nascer ou tenho certeza, seria tão iluminada quando o Paulinho.

Me lembrei muito dela quando soube desse cara genial…

Achei que era um desperdício de vida, ficar sem fazer nada.

E se o Paulinho esperasse os problemas passarem? Provavelmente as previsões dos médicos, de que tinha um curto tempo e vida teriam se realizado e perderíamos um verdadeiro herói, por isso chamei esta matéria de Super Paulinho.

Este post foi o primeiro que escrevi, para a MS, em meses. Estava considerando nem escrever mais e se no futuro me voltar este pensamento, vou lembrar do Paulinho e me inspirar de novo, pois me senti grandemente inspirado com esta história.

Não foi só a revista que parei… eu fazia muitas coisas, entre elas uma que estava me incomodando muito, ter parado de fazer… 

CURSO PARA PCD

Por volta de 2011, decidi iniciar algo que já vinha pensando há algum tempo, minha inspiração foi um vizinho meu, cadeirante, um cara muito inteligente e que eu via sempre, fazer um trabalho que considerava degradante para ele. Ficava pregando botões com uma máquina. Passava seus dias fazendo isso e um dia perguntei quando ganhava naquele trabalho.

Informou que num dia bom ganhava uns 5 reais…

Quer dizer que uma pessoa passa manhã e tarde girando uma máquina manual para prensar botões, correndo o risco de adquirir uma LER —  que o deixaria ainda mais incapacitado — para ganhar míseros 5 reais… em um dia “bom”?

Quando perguntei porque não fazia outro trabalho, informou que recebia auxilio do governo e devido a isso não poderia trabalhar e portanto fazia aquele trabalho, de forma oculta, pois se fosse denunciado perderia o auxílio.

Não perguntei mais, inclusive pensei — muito erradamente — que se ele preferia o auxílio, deveria ser algo que valia a pena, mas não me senti muito confortável em ficar perguntando detalhes.

Mesmo assim, perguntei se não seria mais interessante fazer algo com computadores e fiquei sabendo que além de não ter um, também não sabia usar.

Me propus a lhe conseguir um computador e ensinar a usar, não queria vê-lo mais naquele trabalho aviltante.

Infelizmente isso não foi adiante, ele mudou-se de lá, depois eu mesmo mudei e perdemos o contato, então percebi que poderiam existir muitas pessoas como ele e na época eu estava treinando pessoas em um sistema de call center e me dei conta que seria um trabalho perfeito para cadeirantes e tentei trabalhar em um call center, na qualidade de atendente, para ver como era. Só que fui REPROVADO…

Na época eu já era “meio” PCD, tinho uma surdez parcial, adquirida ainda no exército. Uma longa história, da qual vou poupa-los neste momento.

Fui recusado por conta desta surdez, algo comum, pois como TST, sei que as empresas não querem correr o risco de serem acusadas posteriormente de ter agravado o problema.

Destes eventos nasceu um projeto, onde minha intenção é capacitar pessoas PCD a entrarem neste mercado e efetivamente iniciei, em parceria com o governo estadual, algo que não funcionou, depois tentei com instituições e também não funcionou. Somente em 2017 decidi que faria sozinho, sem qualquer tipo de parceria, algo auto sustentável e fiz…

Em 2018 me tornei um PCD “mais completo”, praticamente de um dia para outro, quando perdi a perna direita.

Obviamente não foi uma recuperação simples, minha vida se modificou completamente e além de encerrar um trabalho que eu adorava e ia de vento em popa, que eram as imagens em 360°, não pude dar conta de manter o projeto para as PCDs.

Pior que isso pois ao precisar, eu mesmo, do apoio governamental descobri — na própria pele — como isso funciona. A aposentadoria especial, paga apenas um salário mínimo — sem direito sequer a 13° salário — é degradante, pois proíbe que a pessoa exerça qualquer outra atividade remunerada, a pena é a perda definitiva de receber o que chamam de “benefício”.

Ficou claro porque meu amigo tinha que fazer serviços incompatíveis com sua capacidade.

Não é o caso de discutir planos de governo, mas acho um absurdo uma pessoa, ainda produtiva, ser obrigada a ficar parada, por conta de um valor que obviamente não é capaz de pagar sequer os remédios que podem ser necessários. Isso é canalhice, pois a pessoa tem direito ao benefício por ter uma incapacidade física e deveria — sim — poder trabalhar.

Não há como esquecer de que existe pelo menos um político famoso que recebeu — muito cedo — aposentadoria, por apenas ter perdido o dedo mindinho e continuou a trabalhar. Porque ele pode e as demais pessoas não?

REFAZENDO O PROJETO

De posse destas novas informações, entendi até porque algumas pessoas se recusaram a participar do projeto, quando o lancei ainda em 2011, era uma escolha entre “um pássaro na mão ou dois voando”.

Não faço a mínima ideia de como vou contornar a questão da estupidez governamental, mas agora sei melhor a quem direcionar o projeto, precisam ser pessoas que não recebem este auxílio, ou dar a elas a oportunidade e perceber que podem ganhar mais do que um salário mínimo com seu próprio esforço e elas tomam a decisão.

E será refeito… inclusive demorei a publicar este texto (que foi escrito em 01/01/2021) porque tinha intenção de anunciar o projeto juntamente com a publicação. Porém percebi que não será algo tão rápido, pois é um trabalho bastante complexo e para funcionar, precisa de um planejamento maior.

Por isso optei por publicar agora a homenagem ao Paulinho, deixando claro que o projeto será dedicado a sua memória.

E só posso agradecer aos que divulgaram esta história, pois foi o que me me inspirou e deu uma carga extra para seguir em frente e certamente será usada novamente sempre que houver uma desmotivação.

Obrigado Paulinho, pelo maravilhoso exemplo. A MS deve uma a você…

Divino Leitão

Safra de 57, um cara das artes, professor e coordenador do CPD da MS. Desde sempre!

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